Uso correto de defensivos agrícolas: a responsabilidade que vai além da aplicação

Por Fábio Kagi, gerente de Assuntos Regulatórios do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg)

Quando se fala em uso correto de defensivos agrícolas, é comum pensar imediatamente no momento da aplicação. No entanto, o manejo desses produtos envolve uma série de cuidados que começam antes mesmo de chegarem à lavoura e continuam após sua utilização.

A escolha do produto adequado, a orientação de um profissional habilitado, o armazenamento, o preparo da calda, a aplicação e a destinação das embalagens vazias são etapas que exigem atenção. Cada uma delas tem implicações para a eficiência do manejo, a proteção dos trabalhadores e o meio ambiente.

No Brasil, o uso de defensivos agrícolas é regulamentado por uma legislação que estabelece requisitos para diferentes etapas do ciclo de vida desses produtos. A Lei nº 14.785, de 2023, dispõe sobre aspectos que vão da pesquisa e do registro à comercialização, utilização e destinação de embalagens. Esse conjunto de normas estabelece responsabilidades para os diferentes agentes envolvidos.

Na prática, o primeiro cuidado começa na escolha do produto. A recomendação deve considerar a cultura, o alvo biológico e as condições da lavoura e considerar sempre o manejo integrado de pragas. O receituário agronômico, emitido por profissional legalmente habilitado, é um instrumento importante nesse processo, pois orienta a utilização do produto de acordo com a necessidade identificada.

Outro ponto fundamental é a leitura do rótulo e da bula. Esses documentos reúnem informações essenciais, como doses, culturas autorizadas, número e intervalo entre aplicações, equipamentos recomendados e medidas de proteção à saúde e ao meio ambiente. Também apresentam orientações sobre o intervalo de segurança, que deve ser respeitado entre a última aplicação e a colheita.

Durante o preparo e a aplicação, seguir essas recomendações é indispensável. A correta manutenção preventiva do equipamento pulverizador, a observação das condições climáticas, a regulagem e calibração dos equipamentos de pulverização, e utilização dos equipamentos de proteção individual indicados fazem parte dos cuidados necessários para uma aplicação adequada. A capacitação dos profissionais envolvidos também tem papel importante, especialmente para reduzir falhas operacionais e riscos decorrentes do manuseio incorreto.

É importante lembrar que a responsabilidade não se limita a aplicação. O armazenamento dos produtos deve seguir as orientações específicas, assim como a limpeza dos equipamentos e a destinação dos resíduos. As embalagens vazias precisam ser lavadas e inutilizadas e ser devolvidas aos postos de recebimento de embalagens vazias indicadas na nota fiscal, conforme as exigências legais.

Todos esses procedimentos estão conectados. Uma falha em qualquer etapa pode comprometer o manejo e gerar consequências que vão além da propriedade rural. Por isso, o uso correto de defensivos agrícolas não deve ser entendido como uma ação isolada, mas como um conjunto de práticas que exige conhecimento, planejamento e atenção contínua.

Nesse contexto, a regulamentação tem uma função essencial: estabelecer critérios e orientar as condutas dos diferentes envolvidos. Mas a existência de normas, por si só, não é suficiente. É necessário que as informações cheguem a quem trabalha diretamente com esses produtos e sejam incorporadas à rotina das propriedades.

Por isso, falar sobre uso correto também é falar sobre conhecimento. À medida que a ciência avança e as normas são atualizadas, é importante que as informações cheguem aos profissionais que lidam diretamente com esses produtos, permitindo que as recomendações técnicas sejam incorporadas à rotina do campo. É preciso compreender como a legislação se aplica à realidade do campo. Afinal, o uso responsável começa com informação e se concretiza nas decisões e nos cuidados adotados em cada etapa.