Agricultura em harmonia: a construção de paisagens que protegem abelhas e alimentam o mundo.

Laercio Zambolim

O manejo integrado de paisagens em sistemas agropecuários é uma abordagem abrangente que busca equilibrar a produção agrícola com a conservação ambiental por meio da gestão sustentável dos recursos naturais e das práticas agrícolas. Essa estratégia combina conhecimentos tradicionais e inovações tecnológicas para otimizar a eficiência produtiva e preservar o meio ambiente. Ao reconhecer a interdependência entre os diversos elementos da paisagem — como solo, água, vegetação e fauna —, o manejo integrado promove práticas sustentáveis que não apenas protegem e restauram os ecossistemas, mas também fortalecem a resiliência ecológica e garantem a produtividade a longo prazo.

Nas paisagens agrícolas, a proteção dos polinizadores, como abelhas e outros insetos, é essencial para a manutenção da biodiversidade e da segurança alimentar. Esses organismos desempenham um papel fundamental na polinização de milhares de espécies de plantas em todo o mundo. No entanto, a degradação dos ecossistemas agrícolas, frequentemente impulsionada por práticas intensivas, pode ameaçar sua sobrevivência, reduzindo a disponibilidade de recursos e comprometendo os serviços ecossistêmicos que garantem a renovação dos cultivos.

Os sistemas agrícolas de alta produtividade são essenciais para a manutenção da competividade do agronegócio brasileiro. Entretanto, é necessário adotar estratégias que minimizem possíveis impactos ambientais e promovam a conservação da biodiversidade, especialmente dos polinizadores, como as abelhas, que desempenham um papel crucial na produção agrícola.

A diversificação dentro dos sistemas agrícolas, como a rotação de culturas e a integração lavoura-pecuária pode ser uma estratégia eficiente para manter o equilíbrio ecológico sem comprometer a produtividade. O diálogo entre agricultores, pesquisadores e apicultores é essencial para desenvolver soluções que conciliem a produção agrícola com a preservação dos polinizadores, garantindo a sustentabilidade do setor no longo prazo.

Além dessa estratégia, a criação de corredores ecológicos, faixas de vegetação nativa e refúgios florísticos desempenha um papel fundamental na manutenção da biodiversidade e no fortalecimento dos serviços ecossistêmicos. Esses elementos promovem ambientes favoráveis para insetos benéficos, como polinizadores e predadores naturais de pragas, contribuindo para um sistema agrícola mais equilibrado, além disso, os corredores ecológicos permitem que polinizadores se desloquem livremente, aumentando a polinização em áreas de cultivo.

Plantar espécies floríferas entre as culturas ou nas bordas dos campos agrícolas é uma prática eficiente para atrair as abelhas e insetos benéficos predadores de insetos-pragas e ácaros. Espécies como girassol, lavanda, manjericão e leguminosas proporcionam alimento e abrigo para esses insetos. A manutenção de áreas de vegetação nativa contribui para a diversidade de habitats e a preservação de polinizadores silvestres.

A presença de polinizadores em paisagens agrícolas tem um impacto direto na produtividade das lavouras. Estima-se que cerca de 80% das plantas cultivadas dependam, em algum grau, da polinização realizada por insetos. Culturas como café, maçã, amêndoa e maracujá apresentam ganhos significativos de rendimento quando a polinização é eficiente. Dessa forma, investir na criação de ambientes propícios para abelhas e outros insetos polinizadores pode resultar em colheitas mais abundantes e de maior qualidade.

Nesse contexto, a legislação ambiental brasileira, que exige a manutenção de reservas legais e áreas de preservação permanente (APPs), pode desempenhar um papel fundamental na conservação desses polinizadores. Essas áreas, quando bem manejadas, podem servir como refúgio e fonte de alimento para insetos benéficos, contribuindo para o equilíbrio ecológico e reforçando os serviços ecossistêmicos essenciais para a agricultura. Assim, a preservação ambiental não apenas atende às exigências legais, mas também se torna uma estratégia para aumentar a produtividade e sustentabilidade das lavouras.

Além da diversificação dos sistemas produtivos e da criação de ambientes favoráveis para a biodiversidade, a conservação do solo e da água é outro aspecto fundamental do manejo integrado de paisagens. Técnicas como o plantio direto, a construção de terraços e a implementação de sistemas de irrigação eficientes desempenham um papel essencial na prevenção da erosão, na retenção de umidade e na manutenção da fertilidade do solo, garantindo a sustentabilidade da produção agrícola a longo prazo.

A restauração de áreas degradadas e a preservação de habitats naturais complementam essas estratégias, fortalecendo a resiliência dos ecossistemas. A recuperação de áreas desmatadas ou erodidas por meio do plantio de espécies nativas e da revegetação não apenas restaura a função ecológica dessas áreas, mas também melhora a qualidade do solo e contribui para a manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais para a produção agrícola sustentável.

A preservação da mata ciliar é essencial para proteger os cursos d’água contra erosão, assoreamento e contaminação, além de oferecer abrigo para diversas espécies de insetos, contribuindo para o equilíbrio ecológico.

A gestão eficiente dos recursos hídricos é particularmente importante em regiões propensas a secas ou com disponibilidade hídrica limitada. A captação e o armazenamento de água da chuva, juntamente com práticas de irrigação eficiente não apenas reduzem a dependência de fontes externas, mas também aumentam a capacidade de adaptação dos agroecossistemas diante de períodos de estiagem.

O uso de defensivos agrícolas requer manejo adequado para evitar impactos na população de polinizadores. Para mitigar possíveis efeitos, o manejo integrado de paisagens enfatiza a adoção de boas práticas, como o uso de bioinsumos e defensivos naturais, incluindo extratos vegetais e microrganismos benéficos, que protegem as plantas ao mesmo tempo em que preservam os polinizadores.

Além disso, a introdução de técnicas como o controle biológico de pragas é essencial para manter o equilíbrio ecológico nas lavouras. Por meio do incentivo à presença de predadores naturais, como joaninhas e crisopídeos, é possível reduzir a população de insetos nocivos sem recorrer a outros produtos prejudiciais. Esse controle natural se torna ainda mais eficaz em paisagens agrícolas diversificadas, onde os insetos-praga encontram maior dificuldade para se proliferar. Dessa forma, a combinação de práticas sustentáveis contribui para a redução da necessidade de defensivos químicos, promovendo um sistema agrícola mais equilibrado e produtivo.

O uso correto dos defensivos, conforme as recomendações de bula, minimiza o risco de exposição das abelhas, promovendo um equilíbrio entre a produção agrícola e a proteção dos polinizadores.

Outro ponto importante a ser considerado é a escolha de defensivos agrícolas seletivos, ou seja, aqueles que atuam especificamente sobre as pragas alvo sem causar grandes impactos aos inimigos naturais dessas pragas e aos polinizadores. Além de reduzir os impactos negativos sobre a fauna benéfica, a adoção de defensivos seletivos, quando aliada a boas práticas agrícolas, contribui para uma produção mais sustentável, diminuindo a necessidade de agroquímicos e promovendo um ambiente agrícola mais equilibrado e produtivo.

O envolvimento da comunidade e a integração de conhecimentos tradicionais são fundamentais para o sucesso do manejo integrado de paisagens. As práticas de manejo devem ser adaptadas às condições locais e envolver os agricultores, comunidades rurais e outras partes interessadas. A educação e a capacitação são essenciais para a adoção de práticas sustentáveis. Além disso, a colaboração entre cientistas, agricultores e formuladores de políticas pode facilitar a implementação de estratégias eficazes de manejo da paisagem e a construção de soluções mais eficazes. Assim, o manejo integrado de paisagens representa um caminho promissor para a agricultura sustentável e a conservação ambiental.